quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

“Promoção: compre um ipad e ganhe de brinde a felicidade”. Será?


Imagem retirada do site http://geografiaem360graus.blogspot.com.br


Por Aryane Pereira, Eduarda Hädrich, Rodrigo Fernandes, Carolina Jorge, 
Juliana Lopes e Lizandra Barreto

Supervisão final: Daniela Delias

O diálogo acima propõe uma reflexão sobre o conceito de felicidade vinculado ao consumo, a droga não química da sociedade pós-moderna. Para muitos, a sensação de felicidade está interligada com o consumismo: quanto mais eu tenho, mais feliz me torno. É um sentimento de bem-estar proporcionado pelo número de pares de sapato que temos no armário ou pela aquisição do último modelo de celular lançado nas campanhas publicitárias. 

O consumismo é um dos males da nossa sociedade e tem sua origem na entrada do capitalismo em nossa economia. Pensemos na diversidade de marcas e produtos encontrados no comércio hoje, em comparação com aquelas/aqueles disponíveis nas prateleiras das lojas há alguns anos, em nossas infâncias, por exemplo. Hoje somos bombardeados pela mídia por uma quantidade exacerbada de produtos que prometem bem-estar, conforto, status, projeção imediata de uma nova vida e a ilusão de que, junto com o produto, estamos comprando a felicidade. Mas será que encontramos mesmo a felicidade nas prateleiras das lojas? Se nós, adultos, nos deixamos enganar por desejos “não reais”, imaginem como isso interfere na vida das crianças e, principalmente, de suas infâncias.

É notável o quanto as propagandas passaram a ser direcionadas às crianças. Por exemplo: em 1980, a marca Johnson&Johnson lançou uma propaganda cujas imagens mostravam uma mãe que segurava pela primeira vez seu bebê recém-nascido, com o seguinte slogan “J&J é a linguagem do amor”. Já em 2009, a propaganda lançada pela mesma marca era protagonizada e direcionada às crianças, na qual crianças parecidas umas com as outras tomavam banho, cantavam e dançavam enquanto usavam os produtos. Por que ocorreu a mudança no foco do consumidor? O alvo dos marketeiros começou a ser o mais frágil, o mais insistente, aquele que é o ponto central da família. O pior é saber que essas mídias são amparadas por profissionais como psicólogos e antropólogos, transformando as propagandas em compilados de informações irresistíveis dentro do desenvolvimento da criança.

Dessa forma, acabamos chegando a um ponto onde os produtos personalizados são fabricados antes mesmo dos desenhos e filmes infantis, transformando os objetos em necessários para a própria brincadeira dos pequeninos. Para onde vai a criatividade e a imaginação tão presentes no mundo infantil? Os mestres do marketing não se esqueceram disso. Toda a atmosfera dos comerciais com suas promessas de felicidade carrega os produtos de uma falsa magia que poderá ser comprada junto com artefatos. Com a aquisição efetivada, vem a frustração. Porém, com o bombardeio constante dos anúncios, é gerado um novo sonho de que talvez o outro objeto traga a alegria, o poder, a energia, os amigos que “o menino da propaganda tem”. Cabe ressaltar que possuímos uma lei de defesa do consumidor sobre a publicidade destinada ao público infantil que não está sendo respeitada. Observe:

“Sobre a publicidade destinada ao público infantil, o Código Brasileiro de Defesa ao Consumidor, Lei nº. 8.078, no seu artigo 37, prevê: 

§ 2° É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança (BRASIL, 1990, p. 5).

 A mesma Lei também apresenta diretrizes que devem ser adotadas pela publicidade, das quais destacamos:

- atenção especial nas características psicológicas do público alvo;
- respeito especialmente à ingenuidade, à credulidade e à inexperiência;
- não ofensa ao menor moralmente;
- não influência ao menor pelo anúncio para que aquele não se sinta inferiorizado por não obter o produto;
- não estímulo ao menor ao consumo pelo anúncio, nem mesmo fazendo com que o menor faça seus responsáveis se sentirem constrangidos socialmente;
- no uso de menores em anúncios, obedecer a cuidados especiais, evitando-se distorções psicológicas e impedir a promoção de comportamentos socialmente condenáveis; 
- em situações publicitárias com menores a primeira preocupação é a segurança e a segunda preocupação está nas boas maneiras de tratamento com os menores.

A grande carga midiática em cima de todos nós, fica difícil não ser influenciado pela onda de consumismo. Muitos pais cedem aos quereres da infância para compensar a ausência causada pelo dia de trabalho, por se sentirem demasiadamente desgastados para enfrentar a insistência, por não quererem entrar em conflito com seus filhos, entre tantos outros motivos permeados pelas questões contemporâneas. Além disso, há uma grande influência das escolas do processo consumista, na medida em que colegas tornam-se competitivos e excludentes em divisões respaldadas em marcas e produtos. Porém, é necessário repensar a educação em uma sociedade na qual a criança é quem determina a compra dos produtos. Pois é inegável que, com os manejos observados hoje, o marketing visa a aceitação passiva da lógica do consumismo pelos adultos nos quais as crianças se tornarão.

Para tanto, devemos nos reportar aos sonhos de infância já adormecidos em nós: será que desejávamos nos tornar adultos sem criatividade, sem curiosidades, sem senso crítico? E mais:  será que queremos que nossos pequenos sejam totalmente sufocados por uma ilusão que ajudamos a construir? Talvez, a chave para as respostas angustiantes dessas questões seja recobrar e não deixar morrer a característica mais marcante da infância e da juventude: a vontade de descobrir novas formas de viver e de buscar caminhos, superando as velhas fórmulas prontas.

Referências:

CONSUMING KIDS - The commercialization of childhood (EUA, 2008, 66min. Direção:Adriana Barbaro, Jeremy Earp).

LOUZA, Francielle Pires de Paula. A influência da mídia no consumo infantil. 2012. 31 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Pedagogia) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá.

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