terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

"Para não dar problema..."

Google - sem informação de autoria

Por Andréa Matias, Anita Maruri e Christina Barski
Supervisão final: Daniela Delias

Há quase duas décadas, acompanhamos a crescente marcha de descobertas de novos distúrbios mentais. Atualmente, presenciamos uma proliferação de diagnósticos das condutas cotidianas, em especial na infância. Podemos usar, como exemplo, o processo de medicalização na escola e a articulação entre medicina e educação, especialmente nas práticas referentes ao que envolvem a possibilidade da ocorrência do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH. 

Em alguns casos, professores atribuem ao seu papel de educadores também a responsabilidade do acompanhamento da criança ou adolescente do ponto de vista clínico-comportamental, mesmo que na maioria das situações não haja conhecimento suficiente para tal prática. Torna-se cada vez mais comum a escola se apropriar dos saberes médicos, apontando “comportamentos desviantes das condutas regulares” das crianças, da mesma forma que incide sobre as famílias, com vistas “no tratamento mais adequado”. 

Uma das conclusões a que chegamos como estudantes de psicologia é considerar improcedente atribuir-se a causa da hiperatividade a distúrbios de ordem neurológica ou bioquímica quando o contexto de desenvolvimento do qual a criança participa está comprometido. Diversas pesquisas que adotam o modelo médico do fenômeno apontam fatores como depressão materna, alcoolismo e drogadição como indicadores genéticos de predisposição ao TDAH e não como fatores psicossociais que afetam o equilíbrio emocional e cognitivo das crianças. Sabe-se que tais fatores trazem desarmonias na vida relacional e comprometem a qualidade do processo socializante em diversos prismas. Nessa situação, diagnosticar o indivíduo como tendo um transtorno mental significa dizer que seu comportamento é resultado de um cérebro que não funciona como deveria, eliminando toda e qualquer influência ambiental em seu modo de ser e agir no mundo.

Outra situação corriqueira (infelizmente) é a da medicalização em crianças e adolescentes abrigados em instituições com fins de proteção aos seus direitos. Em geral, eles chegam à instituição em situação de total descaso e vulnerabilidade social, já vindos com uma ficha de atendimento psiquiátrico assim que recolhidos de suas casas de origem ou mesmo das ruas. Daí o “óbvio”: a maioria é encaminhada com medicação prescrita por motivos de agitação ou agressividade. 

A medicalização tornou-se uma das técnicas praticadas pelos estados modernos para subjugar e controlar as populações. A escola, a família e o trabalho impõem determinadas ideias e modos de estar no mundo e de viver como se fossem únicos e verdadeiros, mas que na verdade interessam ao sistema econômico capitalista no qual vivemos, onde acabamos vendo isso como natural.

Mas afinal, qual lógica regula essas ações médicas das quais as crianças e adolescentes passam a ser alvo privilegiado? Que princípios políticos, sociais e culturais as sustentam? Por que desvinculamos tais princípios dos comportamentos apresentados pelos indivíduos em desenvolvimento? E, principalmente, que efeitos têm sido produzidos a partir destas estratégias de medicalização? Desejamos que as questões levantadas neste texto representem apenas uma pontinha de um debate que merece ser aprofundado com toda a nossa atenção. 

REFERÊNCIAS:

BRODT, Roberta.Comportamento desviante e medicalização da infância: algumas problematizações. In Infância (s), Educação e governamento.( Alfredo Veiga Neto: Org Kamila Lockmamm.) Rio grande. Universidade Federal do Rio Grande, 2013.Ed da FURG.

MOYSÉS. Maria Aparecida Affonso. A Institucionalização Invisível: crianças que não aprendem na escola. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2001. 

A escola esqueceu que é melhor prevenir do que remediar. Disponível em: www.novaescola.org.br/junho-julho, 2013. Acesso em 29 jan. 2014

A medicalização da infância: um mercado em expansão. Disponível em: www.psicologia.ufrj.br/nipiac/index. Acesso em 06 fev. 2014

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