sábado, 22 de fevereiro de 2014

Gênero e sexualidade no desenvolvimento infantil

Imagem produzida pelos autores deste trabalho


Por Maiara Vilas Bôas Morciani, Rebeca Scherer, 
Renata Lobo Poli, Thays Votto e Tomaz Nonticuri 

Supervisão final: Daniela Delias

O desenvolvimento humano, do nascimento à vida adulta, é permeado por muitos estímulos ambientais, sociais e culturais. Como resultado de todos esses estímulos, nossa personalidade, modo de ser, agir e pensar serão moldados de acordo com os exemplos daqueles que nos rodeiam. De maneira geral, percebe-se que as ações esperadas para meninos e meninas são diferentes, e que tais expectativas podem estar cercadas de estereótipos e preconceitos, os quais, por sua vez, podem influir no desenvolvimento e comportamento das crianças. Um exemplo disso é o Bullying, que ocorre quando crianças tratam com indiferença, agressões ou xingamentos aqueles que percebem como diferentes, ou seja, aqueles que não são iguais aos estereótipos construídos em sua cultura.

As diferenciações em relação aos papéis de gênero surgem muito cedo na vida de uma criança. Mesmo antes de o bebê nascer, os pais atribuem características ao filho. Quando estamos nas barrigas de nossas mães, nossa identidade permanece uma incógnita: o que vestiremos, o que faremos, que carreiras seguiremos e até mesmo nosso nome carregará um mistério, mas basta algumas consultas a mais no período de gestação, durante o pré natal, para que o médico diga se o bebê será, então, uma menina ou um menino. 

A partir da revelação de um pênis ou de uma vagina organizam-se as expectativas que os pais, familiares e a própria sociedade têm sobre o ser que irá nascer. Uma série de padrões serão esperados e desejados. Se for menino, qualquer coisa que esteja ligado ao comportamento feminino, dentro do universo masculino, tende a ser vista como uma afronta. Da mesma forma, se o feto for descoberto com uma vagina, outros padrões, muito diferentes, entrarão em ação. Aqui, porém, acontece a mesma coisa: características masculinas são sumariamente condenadas; constrói-se a fantasia de que “atitudes de homem”, quando reproduzidas por mulheres, acabariam por “masculinizar” o ser feminino.

A divisão que a sociedade apresenta a respeito do universo masculino e feminino é um assunto que deve ser trabalhado desde muito cedo com as crianças, a fim de que percepções preconceituosas não perdurem por mais uma geração, principalmente pelo fato de que essa rígida maneira de segregação pode atrapalhar o desenvolvimento infantil.

As crianças, ao brincarem, estão procurando compreender o mundo e o modo como se estabelecem as relações humanas. Neste contexto, inserem-se as questões de gênero e a sexualidade. Freud (1905), um dos pioneiros nos estudos da sexualidade humana, nos mostra que a sexualidade infantil se manifesta desde o nascimento, pois a criança logo que nasce sugará o leite materno, auxiliada pelo reflexo de sucção, o qual traz prazer através do contato da mucosa bucal com o seio da mãe. A criança em pouco tempo aprenderá que ao levar o dedo na boca também sentirá prazer, um sentimento que não estará mais ligado à necessidade da alimentação (sobrevivência). Freud chama esse prazer pelo prazer de erotismo, e o seu aparecimento é considerado como a primeira manifestação da sexualidade infantil. A organização desta sexualidade envolve a identidade de gênero, que dispõe subsídios para a criança se reconhecer como pertencente ao gênero feminino ou masculino, que se desenvolve no âmbito de instituições como a família e a escola.

Quanto à divisão de gênero nas brincadeiras, considera-se como algo histórico que repercute nas famílias há tempos. Desconstruir este pensamento não é fácil, mas não podemos ficar inertes. Percebemos que a criança que tenta ultrapassar esta barreira de “simplesmente” brincar com algo diferente no seu gênero (como “de menino” ou “de menina”) será julgada e questionada, e muitas vezes se tornará motivo de preocupação dos pais por querer explorar e descobrir novas aventuras. “Estas brincadeiras fazem parte do desenvolvimento normal da criança, não caracteriza nada e nem determina identidade nem orientação sexual”, diz o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Núcleo de Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do HC-USP. 

Para a criança, não existe diferenciação nas brincadeiras e brinquedos. Um objeto identificado socialmente como pertencente a outro gênero será apenas um objeto. Portanto, a inversão de papéis só existe na cabeça dos adultos. Logo, quando os padrões e atitudes que se esperam de meninos e meninas são quebrados, a represália é imediata. O preconceito aparece como resposta a uma conduta não esperada para meninos e meninas. 

Heterossexuais, homossexuais e transexuais identificam sua identidade de gênero na tenra infância. Há evidências de que com dois anos de idade muitas crianças já se reconhecem e se identificam mais fortemente com um ou outro gênero. Infelizmente, quando uma criança se vê no gênero oposto ao qual a sociedade diz que ela deveria se reconhecer, é comum que seja repreendida no sentido de que siga outro padrão. Agressões verbais, físicas, morais, patrimoniais, entre tantas outras, são vividas diariamente por inúmeros sujeitos que não se enquadram nas normas impostas como “de homem e de mulher”, seja na escola, no trabalho, na rua, na seita religiosa ou na família. Muitos, infelizmente, acabam sendo vítimas fatais deste ódio. O Brasil é campeão mundial de assassinatos de pessoas homossexuais e transexuais. Isso tem que mudar!


Referências Bibliográficas

Calzavara, B. Seis razões pelas quais as Meninas Superpoderosas poderiam ter substituído sua aula de Estudos de Gênero. Disponível em http://hypescience.com/6-razoes-pelas-quais-as-meninas-superpoderosas-poderiam-ter-substituido-sua-aula-de-estudos-de-genero/

Crônica “Menina não pode brincar?”, disponível em http://thinkolga.com/2014/02/04/menina-nao-pode-brincar/

Documentário “MEU EU SECRETO - Histórias de Crianças Trans”. http://www.youtube.com/watch?v=HC57MOD4Xqw – PARTE I; http://www.youtube.com/watch?v=i4pMGMm3XQs - PARTE II; http://www.youtube.com/watch?v=E0shS5vhtw0 - PARTE III.

Felipe, J.; Guizzo, B. S.; Beck, D. Q. (2013). Infâncias, Gênero e Sexualidade nas tramas da cultura e da educação. Canoas: Editora da Ulbra.

Ferrari, J. S. (2013). Diferenças entre as brincadeiras de meninos e meninas. São Paulo. Disponível em: http://www.brasilescola.com/psicologia/diferencas-entre-as-brincadeiras-meninos-meninas.htm.

Freud, S. (1980). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud (Jayme Salomão, trad.). (Vol. 7, pp. 121-252). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1905).  


Horta, M. (2012). Brinquedo não tem gênero: boneca e carrinho podem divertir meninos ou meninas. São Paulo. Disponível em:  http://mulher.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/redacao/2012/08/30/brinquedo-nao-tem-genero-boneca-e-carrinho-podem-divertir-meninos-ou-meninas.htm.

Nery, J. (2011). Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois. São Paulo: Leya. 

Ribeiro, P. R. C. (2013). Corpos, gêneros e sexualidades: questões possíveis para o currículo escolar. Caderno pedagógico - anos inciais. 3ª edição revisada. Rio Grande: Editora da FURG.

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