segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Conversar, castigar, bater: uma reflexão sobre as diferentes práticas educativas parentais

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Por Alexandra Fraga, Andressa Hubner, Carolina Santos e Taiane Feijó
Supervisão final: Daniela Delias


- Meu filho, não se bate nos outros – dizia o pai do garoto, enquanto batia com o chinelo em suas costas.
- Mas, pai... por que você me bate?
- Porque é para você aprender.

Qual a melhor forma de educar as crianças? Através das famosas “palmadas” ou surras? Conversando? Impondo castigos? O que estimula as crianças a se comportarem bem? 

As práticas educativas parentais são estratégias e técnicas que os pais ou responsáveis utilizam para orientar o comportamento dos seus filhos. Existem várias formas de educar. No entanto, poderíamos classifica-las, de um modo geral, em dois grandes grupos: práticas coercitivas e práticas não coercitivas. As práticas não coercitivas podem ser chamadas, também, de práticas indutivas, e estas objetivam uma modificação voluntária no comportamento da criança. No entanto, observa-se mais frequentemente a utilização de práticas coercitivas, através de técnicas que reforçam e reafirmam o poder parental.

A estratégia disciplinar das práticas indutivas caracteriza-se por direcionar a atenção da criança para as consequências de seu comportamento e para as demandas lógicas da situação, ao invés das consequências punitivas para ela mesma. Práticas deste tipo envolvem explicações sobre as consequências do comportamento da criança, explicações sobre regras, princípios, valores, advertências morais, apelos ao orgulho da criança e ao amor que ela sente pelos pais, explicações sobre as possíveis implicações maléficas ou dolorosas das ações da criança para os outros e para si mesma e sobre o seu relacionamento com as outras pessoas.

A disciplina coercitiva, por outro lado, caracteriza-se por práticas que utilizam a aplicação direta da força e do poder dos pais. Tais práticas incluem punição física e privação de privilégios ou ameaças, compelindo a criança a adequar seu comportamento às reações punitivas dos pais. Essas práticas podem provocar emoções intensas, como hostilidade, medo e ansiedade, interferindo na capacidade da criança para ajustar seu comportamento à situação.

As estratégias coercitivas provocam o controle do comportamento baseado na ameaça de sanções externas e intensificam a percepção de valores e do padrão de ação moral como externo, enquanto as estratégias indutivas favorecem a internalização moral.

Mas existe uma forma mais adequada de ajudar a criança no estabelecimento de limites e respeito?

Estudos indicam que bater em crianças e adolescentes pode levar a vários males, como a repetição deste ato pelas crianças em outros meios sociais, bem como a reprodução da prática depois de adultos com seus filhos. Também estão associadas às práticas coercitivas sentimentos de baixa autoestima, sentimentos de raiva e ódio pelos responsáveis, sentimentos de exclusão do meio familiar, entre outros.

Skinner, psicólogo que trouxe importantes contribuições para a compreensão do comportamento humano, postulou que as punições em nada contribuem com o estabelecimento de comportamentos positivos. Pelo contrário, reforçam justamente o comportamento agressivo que se quer que a criança evite. Nesse sentido, bater em crianças só aumenta o “poder” dos pais, mas os filhos apenas aprendem o que está errado e não o que é o correto.

A percepção de estar sendo cuidada pode minimizar os sentimentos negativos na criança, reduzindo a probabilidade de resultados indesejados no seu desenvolvimento. O uso ocasional de disciplina coercitiva por pais que utilizam, frequentemente, disciplina indutiva, em certas circunstâncias não prejudica o desenvolvimento da criança, mas, evidentemente, isto não se aplica à punição física. As estratégias coercitivas podem minimizar este caráter quando se tornam qualificadas, ou seja, quando existe uma explicação para justificar ou legitimar a solicitação da mudança de comportamento, baseada não em motivos centrados no poder dos pais, mas, por exemplo, no bem-estar da criança ou em normas sociais que esta entenda e também valorize. Dessa forma, uma medida restritiva, como a aplicação de uma punição, pode ser utilizada como decorrência natural de um comportamento inapropriado, devendo vir acompanhada de explicações lógicas e adequadas à situação. 

Enfim, como há alternativas à punição física para educar e se impor limites para as crianças, o ideal é que houvesse uma diminuição deste hábito milenar e uma maior aproximação e diálogo entre os pais e seus filhos, para que assim possa existir uma educação de qualidade e sem traumas.


Referências:

Cecconello, A. M., De Antoni, C. & Koller, S. H. (2003). Práticas educativas, estilos parentais e abuso físico no contexto familiar. Psicologia em Estudo, 8(nº esp.), 45-54.

Weber, L. N. D.; Salvador, A. P. V. (2005). Práticas educativas parentais: um estudo comparativo da interação familiar de dois adolescentes distintos. Interação em Psicologia, 9 (2), p. 341-353.

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