terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Contando com o outro: uma reflexão sobre cuidados alternativos na infância


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Por Edna Souza e Maurício dos Santos
Supervisão final: Daniela Delias

Não é novidade o fato de que as transformações sociais têm levado as mulheres a se inserirem cada vez mais no mercado de trabalho. Porém, podemos pensar que a busca de realização pessoal e profissional é inerente ao ser humano, independentemente de seu gênero e da forma como as famílias são constituídas. O trabalho, nesse sentido, contribui para que, em diferentes configurações familiares, busquem-se espaços de socialização para o adulto e para os filhos, o que nos parece muito saudável. Diante desta realidade, cuidados alternativos para as crianças fazem-se necessários. 

Quando falamos em cuidados alternativos, entramos numa polêmica: deixar ou não nossas crianças aos cuidados de terceiros? Diversas alternativas apresentam-se para as famílias que precisam de apoio no cuidado dos filhos, destacando-se as escolas de educação infantil e a própria casa da criança, de familiares ou vizinhos, sob a supervisão de outros cuidadores. Seja qual for a escolha, enfrentamos um dilema entre o desejo de que nossos filhos sejam bem cuidados - e que possam ter um desenvolvimento social pleno - e as informações que nos chegam através da mídia, diariamente, sobre casos de maus tratos em instituições que nos pareciam seguras. 

Embora os estudos acerca deste tema não sejam conclusivos, alguns sugerem que crianças com até um ano de idade, sujeitas a cuidados alternativos por mais de vinte horas semanais, tendem a apresentar apego inseguro, principalmente os meninos, os quais seriam submetidos a uma educação diferenciada por conta de uma concepção equivocada de que seriam menos sensíveis e delicados do que as meninas.  De acordo com tais pesquisas, crianças submetidas a essa situação enfrentam mais negatividade, menos independência, choram mais e se engajam menos em jogos do que crianças com menos horas de cuidado alternativo. Por outro lado, os mesmos estudos revelam que essas crianças mostram níveis mais elevados de brincadeiras e de comunicação com os educadores, pois ao entrarem mais cedo em instituições de boa qualidade, têm mais oportunidade e tempo para aprender a brincar com outras crianças, aprendendo a compartilhar e se tornando mais sociáveis.  De fato, os espaços alternativos podem ser muito importantes à medida que colaboram com o desenvolvimento da autoestima e sociabilidade, suprindo, na medida do possível, necessidades do bebê que por um ou outro motivo não podem ser atendidas adequadamente em outros contextos.

Quanto à adaptação da criança aos diferentes cuidados, entende-se que é fundamental que, ao ser cuidada por alguém, ela se sinta protegida e afetivamente acolhida. É necessário um tempo para familiarização com as pessoas e lugares, seja a creche, a casa de avós ou de parentes e vizinhos. As reações da criança à adaptação são várias, desde choro, apatia e passividade, alterações no sono e na alimentação, agressividade etc. É importante lembrar que a adaptação depende não só da forma como são realizados os cuidados, mas também de como os pais transmitem suas seguranças, inseguranças e seu apego aos filhos.

Portanto, como cuidadores, devemos pensar no que é melhor para o desenvolvimento de nossos pequenos, tentando equilibrar o apoio de outras pessoas e/ou instituições com o necessário convívio familiar. Além disso, é importante lembrar que a interação entre crianças, muitas vezes proporcionada apenas no contexto dos cuidados alternativos, é fundamental para o desenvolvimento infantil. Seja qual for a escolha, vale destacar a importância da qualidade do tempo compartilhado em família ou noutros contextos. E que, acima de tudo, tenhamos tempo para nossos filhos, mesmo podendo contar com o apoio do mundo lá fora. 


Referências:

Rapoport, A. & Piccini, C. A. (2001). O ingresso e adaptação de bebês à creche: alguns aspectos críticos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 14(1), 81-95.

Rapoport, A. & Piccini, C. A. (2004). A Escolha do Cuidado Alternativo para o bebê e a criança pequena. Estudos de Psicologia, 9(3), 497-503.

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