quinta-feira, 4 de abril de 2013

Do nascimento ao final do segundo ano de vida


Google - sem informação de autoria


Por Guilherme de Lima, Lucas Czarneski Severo, 
Lucas Gondran Ribeiro, Jowber D. Cunha, Lara Torrada Pereira, 
Thamires Pereira e Patrice Tavares

            Diferentes concepções acerca do homem, da natureza e da cultura têm fundamentado, ao longo dos anos, distintas teorias e métodos de pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento. Porém, parece haver um consenso no que se refere à importância das primeiras relações para o desenvolvimento humano. Nesse sentido, o período compreendido entre o nascimento e o final do segundo ano de vida tem sido amplamente estudado, considerando-se o entendimento de que nas primeiras relações do bebê e da criança pequena com mundo encontram-se as bases da organização de sua personalidade. Mas, afinal, o que acontece com a criança nesses momentos iniciais de seu desenvolvimento? Como ela se relaciona com o mundo? Como ela sente esse mundo? De que forma sua afetividade e sua inteligência desenvolvem-se?
René Spitz, um importante estudioso do desenvolvimento, disse que este ocorre em “degraus”, e destacou a presença de alguns organizadores psíquicos: o sorriso social (entre 2 e 3 meses), a ansiedade diante de estranhos (entre 7 e 8 meses) e a aquisição da negação (entre 11 e 13 meses).  Já Sigmund Freud, propôs que o desenvolvimento humano está fortemente associado à libido - energia psíquica ligada à pulsão sexual, à busca por prazer e satisfação de necessidades. Segundo a psicanálise, diferentes fases podem ser observadas ao longo do desenvolvimento libidinal. Nos primeiros meses de vida, a libido do bebê está centrada na boca. Essa fase, chamada de fase oral, vai do nascimento até aproximadamente os 18 meses. A alimentação e o prazer do bebê estão localizados na sucção, seja do seio materno ou de substitutos como a chupeta, a mamadeira e o dedo. Para a psicanálise, o prazer associado à alimentação e aos cuidados parentais coloca a relação mãe-pai-bebê como algo estruturante no desenvolvimento da personalidade. Erik Erikson ampliou as concepções sobre a importância dessa relação ao dizer que ela permitirá à criança um senso de confiança básica no mundo, o que contribuiria para um desenvolvimento saudável em que a pessoa poderia se sentir segura o suficiente para mais tarde tomar suas decisões próprias sem medos e ansiedades exageradas e desnecessárias.
O papel desempenhado pelos cuidadores é, de fato, essencial ao desenvolvimento da criança. Contudo, é muito importante considerar que o bebê não é um ser passivo em relação ao meio. Incríveis capacidades visuais, auditivas e olfativas estão presentes desde o nascimento, o que o torna muito ativo na percepção das informações sensoriais. Sendo assim, o seu temperamento também irá influenciar diretamente a relação com seus pais, a partir de seus níveis de atividade, responsividade, humor e adaptabilidade.
Independentemente do aspecto de desenvolvimento que se foque a atenção, entende-se que o bebê não pode ser visto como um ser desprovido de inteligência. Ao contrário, nesses anos iniciais a criança está em franca experimentação da realidade e exercício intelectual na construção de esquemas e representações próprias a respeito do mundo que a circunda. Em oposição ao que o senso comum muitas vezes diz, embora dependente dos outros para sua sobrevivência, o bebê não é menos inteligente do que um adulto, apenas se encontra em uma fase do desenvolvimento distinta. Seus problemas, dilemas e resoluções dizem respeito a questões diferentes, mas não menos importantes que aquelas enfrentadas por pessoas com outras idades.
Em relação a isso, poderíamos perguntar: como a mente infantil processa todos os estímulos que o mundo apresenta, e como se desenvolve a inteligência nesse período? Jean Piaget, renomado psicólogo e biólogo suíço, é conhecido por sua contribuição para a compreensão do desenvolvimento cognitivo. Para ele, o conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos nem de uma programação inata pré-formada no sujeito, mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas: é na ação sobre o meio que se constrói o conhecimento. Para Piaget, chama-se sensório-motor o período compreendido entre o nascimento e o segundo ano de vida da criança. Nessa etapa do desenvolvimento, através da coordenação de diversas informações, o bebê vai gradativamente desenvolvendo e ampliando o conhecimento sobre o meio que o cerca. Nesse período há o início do desenvolvimento do pensamento simbólico, em que a criança desenvolve imagens mentais, ou seja, a capacidade de representar simbolicamente a realidade, o que significa um grande marco em seu desenvolvimento.
No segundo ano de vida, observam-se importantes saltos no desenvolvimento. Por volta dos dois anos, a criança desenvolve um senso de identidade de gênero, embora a identidade sexual não seja adquirida até a adolescência. Nessa fase a criança adquire um senso de individualidade e autoconsciência: reconhece a si própria no espelho, utiliza-se dos termos “eu e “meu”, e passa a perceber e apreciar os sentimentos dos outros. Segundo a teoria psicanalítica, esse período de vida corresponde à fase anal: a retenção ou liberação das fezes possui representação simbólica para a criança. A passagem por esse período é, normalmente, intensa e terá grande influência nas próximas etapas do desenvolvimento. O processo de treinamento do controle esfincteriano nessa fase coincide com uma maior maturação neuromuscular da criança. Além de ser capaz, fisiologicamente, de controlar seu esfíncter anal e uretral, a criança tem também que aprender a adiar a vontade de urinar ou evacuar. A maturação do controle esfincteriano lhe traz exigências paradoxais: por vezes, ela tem de ceder para agradar e, outras vezes, reter também pra agradar. Essa exigência acontece ao mesmo tempo em que os conflitos acerca do seu autocontrole estão ocorrendo. Nesta etapa, o auxílio dos pais deve vir de uma forma tranquila e não compulsiva, no sentido de dar subsídios pra autoconfiança do seu filho.
Em relação à linguagem, aos dois anos a criança fala em torno de 200 palavras. Aproximando-se do terceiro ano, passa a elaborar frases curtas, enquanto que, aos três anos, fala razoavelmente bem. Ela é capaz de contar histórias simples e comunicar-se claramente utilizando a linguagem verbal. A linguagem leva à socialização das ações, ou seja, conduz a criança à passagem do pensamento individual para o vasto sistema do pensamento coletivo. É nesse período que se observa também a construção do senso de moralidade. Muitas vezes, a criança passa a explorar violações de regras adultas e eventos que provocam a desaprovação dos outros, inaugurando a “fase da birra” - o conflito de interesses entre pais e filho expressa-se de forma muito intensa nesse período, só voltando a instalar-se com a mesma força na adolescência.
As inúmeras conquistas e habilidades desenvolvidas neste período trazem importantes modificações para a comunicação pais-criança: é preciso encontrar soluções que levem em conta as necessidades de ambas as partes. Essa nova relação conduzirá a sentimentos de segurança, ao passo que a criança começará a internalizar o apoio dos pais e, assim, passará também a sentir-se confiante para resolver seus próprios conflitos.

Referência:

EIZIRIK, Cláudio Laks; KAPCZINSKI, Flávio; BASSOLS, Ana Margareth Siqueira (Orgs.). O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2001.

Supervisão: Profª Draª Daniela Delias de Sousa

Nenhum comentário:

Postar um comentário