sábado, 13 de abril de 2013

Entrevista com a pedagoga Janaína Noguez sobre a idade escolar

Janaína Noguez - Pedagoga do CAIC/FURG
Por Erick Prado, Diego Roque, Itajubá Ferreira, Marcelo Nunes e Marcos Londero
Entrevistador: Itajubá  Ferreira


Janaína Noguez atua como coordenadora de projetos de estágio no Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (CAIC/FURG). Possui graduação em Pedagogia (2002), especialização em História do Rio Grande do Sul (2003) e mestrado em Educação Ambiental (2006) pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Atuou como docente nesta instituição na área de Metodologia da Pesquisa, atuando nos cursos de Pedagogia, Administração, Ciências Contábeis, Química-licenciatura e Física-licenciatura. Além da experiência docente no ensino superior, possui experiência como docente também no ensino médio na disciplina de Sociologia na Rede Particular e Estadual de Ensino. Já atuou como supervisora/orientadora pedagógica em escola particular. A partir do 2º semestre de 2007 iniciou uma experiência com a Educação a Distância pela Universidade Aberta do Brasil/FURG, atuando como tutora em uma disciplina do curso de Pedagogia (disciplina de Políticas Públicas em Educação). Em 2009 foi tutora a distância do curso de graduação em Matemática da Rede Gaúcha de Ensino Superior a Distância (REGESD) e professora de Sociologia da Rede Estadual de Ensino de Rio Grande. Em 2010 atuou como Pedagoga no NAE (Núcleo de Assistência Estudantil) na Universidade federal do Rio Grande. Atuou também como docente do IFRS Campus Porto Alegre e docente e supervisora pedagógica do IF Sul-Rio-Grandense Campus Pelotas - Visconde da Graça em Pelotas/RS. Atualmente é Pedagoga (gestão) junto a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura na Universidade Federal do Rio Grande - FURG.

Supervisão: Profª Drª Daniela Delias de Sousa

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A criança em idade escolar

Google - sem informação de autoria

Por Erick Prado, Diego Roque, Itajubá Ferreira, Marcelo Nunes e Marcos Londero (6 a 9 anos)/ 
Cláudio André Amaral, Fernanda Tavares, Rafaella Brod, Rafaela Machado (9 a 12 anos).


          Passados os primeiros seis anos de vida, tempo em que a criança vivia basicamente em casa aos cuidados da família, chega a hora de conhecer o mundo fora desse círculo inicial de convivência. Na idade escolar, período compreendido entre seis e 12 anos de idade, ela conhece crianças de famílias diferentes da sua e se depara com regras e exigências de conduta social, o que contribuirá com a construção de padrões e hábitos que influenciarão na sua vida jovem e adulta.
A idade escolar é um longo período. Entre seis e nove anos de idade observa-se a maior parte das mudanças que dizem respeito à necessidade de estabelecer relacionamentos fora da família. A escola representa o primeiro contato com o mundo fora desta, com colegas e professores que influenciarão na formação do indivíduo. Nessa fase, a criança passa a ter planos, pensar no futuro e naqueles ao seu redor, e se vê profundamente comprometida com o aprendizado formal (escola) e aprendizado informal (relações sociais).
É importante destacar que o ambiente escolar torna-se um dos principais cenários para a vivência de um conflito que o psicanalista Erik Erikson chamou de “indústria x inferioridade”. Erikson utiliza a palavra indústria no sentido de produtividade, de desenvolvimento e de competência, concluindo que, nesta fase, em várias culturas, fazem-se importantes aprendizagens sociais. Já o termo “inferioridade” refere-se à possibilidade da criança, quando em circunstâncias menos favoráveis, desenvolver neste período um sentimento de inadequação por não se sentir segura nas suas capacidades ou não se sentir reconhecida em seu papel no grupo social a que pertence. É aqui que a criança passa a perceber competências e papéis específicos que fazem parte de sua cultura. É no contato com seus pares que a formação cultural se molda, uma vez que a criança precisa desprender-se do seu egocentrismo e onipotência em prol da convivência com os demais. 
Em relação ao desenvolvimento cognitivo, Jean Piaget apontou para um importante salto que ocorre nesta fase: a criança passa do estágio pré-operatório para o estágio das operações concretas. Para Piaget, é nesse estágio que se reorganiza verdadeiramente o pensamento. A criança consegue realizar operações mentais que até então não conseguia, como, por exemplo, a reversibilidade. No entanto, precisa da realidade concreta para realizar as mesmas, ou seja: está fortemente ligada ao concreto, a percepção concreta das situações vividas. Nesse período, suas próprias observações e experiências servem como ponto de apoio para a aprendizagem. Aqui, a criança passa a ter capacidade de utilizar a lógica indutiva, isto é, parte de suas próprias experiências para a compreensão de um princípio geral. Contudo, segundo o autor, ainda não é capaz de utilizar a lógica dedutiva, na qual a partir de um princípio geral pode-se gerar hipóteses jamais vividas.
Sigmund Freud chamou de “latência” o período do desenvolvimento compreendido entre os anos de infância e a adolescência. A palavra latência conduz inicialmente à ideia de que algo se encontra em estado de espera. Porém, não é o que se observa. Nessa fase, ocorre uma importante reorganização das defesas, as quais estão apoiadas em dois pilares: o plano afetivo e o plano cognitivo. Em relação à libido – foco dos estudos psicanalíticos sobre o desenvolvimento humano - o equilíbrio da latência é concretizado quando forem dados os passos em direção à resolução do Complexo de Édipo. A identificação com os pais torna-se parte da evolução da personalidade da criança, estabelecendo assim um relacionamento de neutralidade com os mesmos. A imagem dos pais deixa de ser tão idealizada tornando-a mais passível de identificação. Nesse período, a libido é impedida de se manifestar em sua forma mais claramente sexualizada, isso explica a necessidade do escolar de praticar atividades manuais, esportes e competições que aparecem como um conjunto de ações e condutas com características sublimatórias, fortalecendo o ego e elevando a autoestima, o que permite uma melhor convivência social. Diferentemente das primeiras etapas de vida, a criança agora inicia um desligamento progressivo dos cuidadores, fazendo com que se intensifiquem os laços com os amigos, sendo que meninos e meninas se distanciam, reunindo-se em grupos praticamente antagônicos.
O conflito edípico, segundo a teoria psicanalítica, é dramatizado por meio de uma conduta ora submissa, ora rebelde, em uma luta dolorosa entre o proibido e o permitido. É comum, nessa fase, o rechaço e o deslocamento da agressão para as figuras parentais. Muitas vezes, a criança esconde suas dificuldades e não busca ajuda, deixando os pais perdidos e com a sensação de impotência. A busca de outros princípios tem o sentido de deixar a ligação inicial, fazendo novos vínculos e caminhando em direção a uma identidade própria. Quando a criança está chegando ao final do período da latência, o antigo interesse pelo próprio corpo se dirige para a curiosidade pelo corpo do outro.  É nesse momento que se observam alguns movimentos de segregação de gênero, sendo que as amizades entre meninos são extensivas e limitadas enquanto que as meninas costumam ter amizades mais intensas e facilitadoras. Os vínculos de amizade fortalecerão a construção da identidade sexual. Além disso, surge a necessidade do conhecimento do mundo e das leis que o regem, sendo que o senso de autoestima deriva agora das realizações.

Referências:

BEE, Helen; Regina Garcez (trad.). O ciclo vital. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

DAVIDOFF, Linda L. Introdução a Psicologia: Terceira Edição. São Paulo: Pearson Amkron Books, 2001.

EIZIRIK, Cláudio Laks; KAPCZINSKI, Flávio; BASSOLS, Ana Margareth Siqueira (Orgs.).O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2001.

                                              Supervisão: Profª Draª Daniela Delias de Sousa

terça-feira, 9 de abril de 2013

Um pequeno documentário sobre o desenvolvimento infantil na idade pré-escolar

Google - sem informação de autoria

Desenvolvimento Infantil - 3 a 5 anos: 

Vídeo produzido por Fabíola Machado Guedes, Josiele Luana Morais, Lisiane Dias da Cruz,  Luciane Langer Pastorini Lima e Natasha de Mattos dos Reis, com supervisão da Profa. Daniela Delias de Sousa


A criança em idade pré-escolar

Google - sem informação de autoria

Por Fabíola Machado Guedes, Josiele Luana Morais, Lisiane Dias da Cruz, 
Luciane Langer Pastorini Lima e Natasha de Mattos dos Reis


O período do desenvolvimento compreendido entre o 3º e o final do 5º ano de vida é chamado de idade pré-escolar. Nesta fase, a criança conquista importantes habilidades, principalmente em relação à linguagem e à socialização, o que contribui para que se torne mais independente e com capacidade de afirmar sua personalidade de forma única e peculiar.
No início do período, a criança já é capaz de compreender e expressar sentimentos mais complexos, como amor, tristeza, ciúmes e inveja, tanto no âmbito verbal como não verbal. Além disso, demonstra preocupação em ter a aprovação das pessoas que lhe são queridas: seus pais e cuidadores. Na fase final, a criança mostra-se apta para enfrentar desafios cada vez mais complexos no que se refere ao convívio social, já que domina tarefas primárias de socialização, como controlar os esfíncteres, vestir-se e alimentar-se sozinha, além de suas emoções estarem mais estáveis.
Segundo a teoria psicanalítica, a primeira fase do desenvolvimento é marcada pela importância da oralidade. Um pouco mais adiante, entre 18 meses 24 meses de idade, o controle do próprio corpo (esfíncteres) coincide com um grande desejo de controle do mundo e busca de autonomia, o que caracteriza a fase anal. Na faixa de dois a três anos, a criança começa a ter consciência da genitália e das diferenças entre os sexos, o que a leva a começar um processo de busca de compreensão dos papéis feminino e masculino. E na fase pré-escolar? Para os psicanalistas, neste período a criança encontra-se no estágio fálico do desenvolvimento psicossexual. Entre três e cinco anos, a libido está voltada à região genital. Não raras vezes, observam-se comportamentos naturais às dúvidas e descobertas em relação ao próprio corpo, como a masturbação e a ansiedade em relação a ferimentos.
Erik Erikson trouxe uma importante contribuição para os estudos psicanalíticos sobre a criança em fase pré-escolar ao propor que nesse período o grande desafio está no desenvolvimento do senso de iniciativa. Nessa fase, a criança parece dotada de uma energia interminável, que é extravasada principalmente através do brincar e de atividades motoras (correr, pular, subir, descer etc.). A criança estará aprendendo também como funciona o mundo social e como ela funciona dentro dele. A confiança na sua própria capacidade de iniciativa, para Erikson, está bastante associada à criatividade e ao desempenho de tarefas na idade adulta. Neste período de intensa atividade imaginativa, o mundo de fantasias parece sobressair-se em relação à realidade.
Aos quatro anos, a criança é extremamente curiosa, costuma perguntar tudo. Essa é a famosa fase dos “porquês”, e é nesse momento que começa a elaborar melhor a linguagem, começa a ter preferências no seu vestir e no arrumar dos cabelos, está sempre disposta a brincar e realiza pequenas missões. No período dos cinco aos seis anos, a criança já consegue se movimentar com confiança para todas as direções, o que evidencia uma real ampliação de suas capacidades motoras. A utilização da linguagem já é eficiente, a criança sente orgulho de suas realizações e, algumas vezes, vergonha de seus erros. Sua memória esta em pleno desenvolvimento. Neste momento, já possui habilidades sociais para praticar esportes jogos e frequentar a pré-escola.
Em relação ao desenvolvimento cognitivo, Jean Piaget postulou que, nesse período, a criança encontra-se no estágio pré-operatório, ou seja: torna-se mais sofisticada no uso do pensamento simbólico e da linguagem, mas, apesar disso, ainda não é plenamente capaz de pensar logicamente e de compreender operações como, por exemplo, a reversibilidade. Neste estágio, principalmente no começo do período, é marcante o egocentrismo do seu pensamento. Um exemplo disso está na tendência a pensar que cada um de seus pensamentos é comum a todas as outras pessoas, e que podem sempre ser compreendidos.
Como pode ser visto, a idade pré-escolar caracteriza-se por um intenso desenvolvimento das habilidades cognitivas, motoras e sociais. A habilidade crescente de agir sobre o mundo traz consequências psicológicas pra criança: ao passo que melhora seu teste de realidade, vê nas capacidades verbais uma maneira de solucionar problemas e cooperar com os outros, o que resultará num avanço significativo da sua autonomia e autossuficiência.

Referências:

BEE, Helen. A criança em desenvolvimento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

EIZIRIK, Cláudio Laks; KAPCZINSKI, Flávio; BASSOLS, Ana Margareth Siqueira (Orgs.). O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2001.

SHAFFER, David R. Psicologia do desenvolvimento. São Paulo: Thomson Pioneira, 2005.

Supervisão: Profª Draª Daniela Delias de Sousa

Um pouquinho mais sobre pais e bebês: com a palavra, Sheila e Maicon, os pais de Pedro - 2 anos

Pedro, Maicon e Sheila - arquivo pessoal da família


Neste depoimento, Sheila Falcão Minuto Pereira e Maicon Torrada Pereira, pais do pequeno Pedro, falam sobre a experiência da parentalidade do nascimento aos dois anos de vida. 
Agradecemos ao casal pela gentileza de conceder a entrevista.


Por Guilherme de Lima, Lucas Czarneski Severo, 
Lucas Gondran Ribeiro, Jowber D. Cunha, Lara Torrada Pereira, 
Thamires Pereira e Patrice Tavares

Supervisão: Profª Draª Daniela Delias de Sousa

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Com a palavra, Karla e Maurício, os pais de Guillermo - 10 meses


Karla, Guillermo e Maurício - arquivo pessoal da família


Neste depoimento, Karla Alonso Pereira e Maurício Torrada Pereira, pais do pequeno Guillermo, falam sobre a experiência da parentalidade. Agradecemos ao casal pela gentileza de conceder a entrevista.


Por Guilherme de Lima, Lucas Czarneski Severo, 
Lucas Gondran Ribeiro, Jowber D. Cunha, Lara Torrada Pereira, 
Thamires Pereira e Patrice Tavares.

Supervisão: Profª Draª Daniela Delias de Sousa

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A criança de 0 a 2 anos: uma entrevista com a psicóloga Valéria Silveira


Psicóloga Valéria Silveira, de Rio Grande - RS


Link para a entrevista no Youtube
Nesta entrevista, gentilmente concedida ao blog "Infância e Desenvolvimento Humano", a psicóloga Valéria Silveira fala sobre o desenvolvimento infantil no período compreendido entre o nascimento e o segundo ano de vida. Agradecemos à Valéria por sua disponibilidade e ao psicólogo Eduardo de Bem pela condução da entrevista.

Valéria Silveira possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande (2011). Atua como psicóloga clínica. Está se especializando em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica na Sociedade Científica Sigmund Freud de Pelotas - RS. É psicóloga colaboradora do Núcleo de Pesquisa e Extensão sobre o Bebê e a Infância (NUPEBI/FURG).

Do nascimento ao final do segundo ano de vida


Google - sem informação de autoria


Por Guilherme de Lima, Lucas Czarneski Severo, 
Lucas Gondran Ribeiro, Jowber D. Cunha, Lara Torrada Pereira, 
Thamires Pereira e Patrice Tavares

            Diferentes concepções acerca do homem, da natureza e da cultura têm fundamentado, ao longo dos anos, distintas teorias e métodos de pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento. Porém, parece haver um consenso no que se refere à importância das primeiras relações para o desenvolvimento humano. Nesse sentido, o período compreendido entre o nascimento e o final do segundo ano de vida tem sido amplamente estudado, considerando-se o entendimento de que nas primeiras relações do bebê e da criança pequena com mundo encontram-se as bases da organização de sua personalidade. Mas, afinal, o que acontece com a criança nesses momentos iniciais de seu desenvolvimento? Como ela se relaciona com o mundo? Como ela sente esse mundo? De que forma sua afetividade e sua inteligência desenvolvem-se?
René Spitz, um importante estudioso do desenvolvimento, disse que este ocorre em “degraus”, e destacou a presença de alguns organizadores psíquicos: o sorriso social (entre 2 e 3 meses), a ansiedade diante de estranhos (entre 7 e 8 meses) e a aquisição da negação (entre 11 e 13 meses).  Já Sigmund Freud, propôs que o desenvolvimento humano está fortemente associado à libido - energia psíquica ligada à pulsão sexual, à busca por prazer e satisfação de necessidades. Segundo a psicanálise, diferentes fases podem ser observadas ao longo do desenvolvimento libidinal. Nos primeiros meses de vida, a libido do bebê está centrada na boca. Essa fase, chamada de fase oral, vai do nascimento até aproximadamente os 18 meses. A alimentação e o prazer do bebê estão localizados na sucção, seja do seio materno ou de substitutos como a chupeta, a mamadeira e o dedo. Para a psicanálise, o prazer associado à alimentação e aos cuidados parentais coloca a relação mãe-pai-bebê como algo estruturante no desenvolvimento da personalidade. Erik Erikson ampliou as concepções sobre a importância dessa relação ao dizer que ela permitirá à criança um senso de confiança básica no mundo, o que contribuiria para um desenvolvimento saudável em que a pessoa poderia se sentir segura o suficiente para mais tarde tomar suas decisões próprias sem medos e ansiedades exageradas e desnecessárias.
O papel desempenhado pelos cuidadores é, de fato, essencial ao desenvolvimento da criança. Contudo, é muito importante considerar que o bebê não é um ser passivo em relação ao meio. Incríveis capacidades visuais, auditivas e olfativas estão presentes desde o nascimento, o que o torna muito ativo na percepção das informações sensoriais. Sendo assim, o seu temperamento também irá influenciar diretamente a relação com seus pais, a partir de seus níveis de atividade, responsividade, humor e adaptabilidade.
Independentemente do aspecto de desenvolvimento que se foque a atenção, entende-se que o bebê não pode ser visto como um ser desprovido de inteligência. Ao contrário, nesses anos iniciais a criança está em franca experimentação da realidade e exercício intelectual na construção de esquemas e representações próprias a respeito do mundo que a circunda. Em oposição ao que o senso comum muitas vezes diz, embora dependente dos outros para sua sobrevivência, o bebê não é menos inteligente do que um adulto, apenas se encontra em uma fase do desenvolvimento distinta. Seus problemas, dilemas e resoluções dizem respeito a questões diferentes, mas não menos importantes que aquelas enfrentadas por pessoas com outras idades.
Em relação a isso, poderíamos perguntar: como a mente infantil processa todos os estímulos que o mundo apresenta, e como se desenvolve a inteligência nesse período? Jean Piaget, renomado psicólogo e biólogo suíço, é conhecido por sua contribuição para a compreensão do desenvolvimento cognitivo. Para ele, o conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos nem de uma programação inata pré-formada no sujeito, mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas: é na ação sobre o meio que se constrói o conhecimento. Para Piaget, chama-se sensório-motor o período compreendido entre o nascimento e o segundo ano de vida da criança. Nessa etapa do desenvolvimento, através da coordenação de diversas informações, o bebê vai gradativamente desenvolvendo e ampliando o conhecimento sobre o meio que o cerca. Nesse período há o início do desenvolvimento do pensamento simbólico, em que a criança desenvolve imagens mentais, ou seja, a capacidade de representar simbolicamente a realidade, o que significa um grande marco em seu desenvolvimento.
No segundo ano de vida, observam-se importantes saltos no desenvolvimento. Por volta dos dois anos, a criança desenvolve um senso de identidade de gênero, embora a identidade sexual não seja adquirida até a adolescência. Nessa fase a criança adquire um senso de individualidade e autoconsciência: reconhece a si própria no espelho, utiliza-se dos termos “eu e “meu”, e passa a perceber e apreciar os sentimentos dos outros. Segundo a teoria psicanalítica, esse período de vida corresponde à fase anal: a retenção ou liberação das fezes possui representação simbólica para a criança. A passagem por esse período é, normalmente, intensa e terá grande influência nas próximas etapas do desenvolvimento. O processo de treinamento do controle esfincteriano nessa fase coincide com uma maior maturação neuromuscular da criança. Além de ser capaz, fisiologicamente, de controlar seu esfíncter anal e uretral, a criança tem também que aprender a adiar a vontade de urinar ou evacuar. A maturação do controle esfincteriano lhe traz exigências paradoxais: por vezes, ela tem de ceder para agradar e, outras vezes, reter também pra agradar. Essa exigência acontece ao mesmo tempo em que os conflitos acerca do seu autocontrole estão ocorrendo. Nesta etapa, o auxílio dos pais deve vir de uma forma tranquila e não compulsiva, no sentido de dar subsídios pra autoconfiança do seu filho.
Em relação à linguagem, aos dois anos a criança fala em torno de 200 palavras. Aproximando-se do terceiro ano, passa a elaborar frases curtas, enquanto que, aos três anos, fala razoavelmente bem. Ela é capaz de contar histórias simples e comunicar-se claramente utilizando a linguagem verbal. A linguagem leva à socialização das ações, ou seja, conduz a criança à passagem do pensamento individual para o vasto sistema do pensamento coletivo. É nesse período que se observa também a construção do senso de moralidade. Muitas vezes, a criança passa a explorar violações de regras adultas e eventos que provocam a desaprovação dos outros, inaugurando a “fase da birra” - o conflito de interesses entre pais e filho expressa-se de forma muito intensa nesse período, só voltando a instalar-se com a mesma força na adolescência.
As inúmeras conquistas e habilidades desenvolvidas neste período trazem importantes modificações para a comunicação pais-criança: é preciso encontrar soluções que levem em conta as necessidades de ambas as partes. Essa nova relação conduzirá a sentimentos de segurança, ao passo que a criança começará a internalizar o apoio dos pais e, assim, passará também a sentir-se confiante para resolver seus próprios conflitos.

Referência:

EIZIRIK, Cláudio Laks; KAPCZINSKI, Flávio; BASSOLS, Ana Margareth Siqueira (Orgs.). O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2001.

Supervisão: Profª Draª Daniela Delias de Sousa