sábado, 30 de março de 2013

Do bebê imaginário ao bebê real: o período da gestação

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Por Daísa Brião, Flavia Moreira, Helen Gonçalves e Nádia Neves

O período gestacional caracteriza-se pela ocorrência de múltiplas e novas sensações, transformações físicas, psicológicas e sociais. É nesse contexto de mudanças que mãe, pai e familiares preparam-se para receber o bebê. Já no começo, a confirmação da gravidez faz emergir diversos sentimentos. Algumas pessoas mostram-se conscientes de seus desejos em relação à parentalidade, inclusive planejando a época da concepção e nascimento. Outras, no entanto, são surpreendidas pela notícia da vinda de um bebê. De fato, algumas vezes a gravidez pode ser o resultado de uma falha no método anticoncepcional escolhido. Contudo, alguns teóricos consideram que tais “surpresas” podem também significar a realização de um desejo inconsciente de ter filhos.
Diferentes transformações caracterizam cada um dos três trimestres de gestação. No primeiro, entre a 1ª e a 12ª semana, ocorrem alguns sintomas que são comuns a muitas mulheres, tais como: sonolência, cansaço e náuseas. Algumas futuras mamães relatam um aumento em sua “sensibilidade”, uma vez que se percebem mais chorosas e emotivas, de maneira geral. Em relação a isso, é interessante destacar que alguns homens também sentem sintomas semelhantes àqueles experimentados pelas mulheres. Tais sintomas poderiam ser compreendidos à luz das profundas transformações psicológicas que ambos experimentam nesse período. É bastante comum que surjam questionamentos acerca do processo de tornar-se mãe/pai e fantasias em relação à transformação do papel de filha/filho. Nesse sentido, é esperado o surgimento de sentimentos ambivalentes em relação aos desejos maternos e paternos - tanto para aqueles que programaram como para os que não programaram a gestação - e às responsabilidades inerentes ao papel social correspondente.
Ainda em relação aos aspectos psicológicos, é interessante destacar que as representações sobre o bebê começam a ser construídas no primeiro trimestre: trata-se do “bebê imaginário”, um bebê sonhado por seus pais e que, gradativamente, dará lugar a um bebê real. Tal idealização é importante e esperada durante a gestação, pois ajuda na construção da parentalidade e na conscientização das responsabilidades e papéis socialmente atribuídos aos pais.
No segundo trimestre, compreendido entre a 13ª e a 24ª semana, alguns eventos contribuem para que o bebê “real” ocupe um espaço maior que aquele do bebê imaginado pelos pais: surgem os primeiros movimentos fetais e, entre outras coisas, os batimentos cardíacos podem ser ouvidos ao se colocar o ouvido na barriga da mãe. É como se tais eventos reafirmassem aos pais a existência do bebê! Com isso, torna-se possível conceber mais claramente um bebê separado do corpo materno - um indivíduo ativo e com grandes possibilidades de interação com o mundo.
Nos três últimos meses, entre a 25ª e a 38ª semana, intensificam-se as expectativas relativas ao momento do parto e sobre os cuidados com o filho. Além disso, no imaginário dos pais, as fantasias baseadas nos movimentos fetais associam-se a expectativas quanto ao temperamento. Porém, esses movimentos tendem a diminuir em decorrência da falta de espaço uterino.
O apoio do pai e de outras pessoas importantes para a gestante torna a experiência de gerar um bebê mais tranquila e prazerosa. Observa-se que a presença paterna durante o período pré-natal e ao longo do desenvolvimento do bebê vem crescendo e sendo cada vez mais estimulada. Sendo assim, pode-se dizer que a gestação tem importantes reflexos na vida social da família, colocando-a diante da necessidade de reelaborações e novos arranjos dos relacionamentos.
           
Referências:

Ferrari, A. ; Piccinini, C. A.; Lopes, R. C. S. (2007). O Bebê Imaginado na Gestação: Aspectos Teóricos e Empíricos. Psicologia em Estudo, 12 (2), 305-313. 

Krob, A. D.; Piccinini, C. A.; Silva, M. R. (2009). A transição para a paternidade: da gestação ao segundo mês de vida do bebê. Psicologia USP, 20 (2), 269-291.

Piccinini, C. A.; Gomes, A. G.; Nardi, T. C.; Lopes, R. C. S. (2008) . Gestação e a constituição da maternidade. Psicologia em Estudo Maringá, 13 (1), 63-72.

Shaffer, D. R. (2009). Psicologia do desenvolvimento: infância e adolescência. (Cancissu, C. R. P. Trad.) São Paulo: Cengage Learning (Obra original publicada em 2005).

Zimmermann, A.; Zimmermann, H.; Zimmermann, J.; Tatsch, F.; Santos, C. (2001). Gestação, Parto e Puerpério. In: Eizirick, C. L.; Kapczinski, F.; Bassols, A.M.S. (orgs.). O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica (pp.29-39). Porto Alegre: Artmed.

Supervisão: Profª Drª Daniela Delias de Sousa


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