sábado, 30 de março de 2013

Com a palavra, a mamãe: depoimento de Daísa Brião sobre o período da gestação


Imagem: acervo pessoal de Daísa Brião



Nossos agradecimentos à gestante Daísa Brião por tão gentilmente compartilhar suas impressões acerca do período da gravidez nesta entrevista. Daísa, que espera Carolina, é formada em Ciências Sociais pela UFPEL e acadêmica de Psicologia da FURG. 

Por Daísa Brião, Flavia Moreira, Helen Gonçalves e Nádia Neves

Supervisão: Profª Drª Daniela Delias de Sousa

Do bebê imaginário ao bebê real: o período da gestação

Google - sem informação de autoria


Por Daísa Brião, Flavia Moreira, Helen Gonçalves e Nádia Neves

O período gestacional caracteriza-se pela ocorrência de múltiplas e novas sensações, transformações físicas, psicológicas e sociais. É nesse contexto de mudanças que mãe, pai e familiares preparam-se para receber o bebê. Já no começo, a confirmação da gravidez faz emergir diversos sentimentos. Algumas pessoas mostram-se conscientes de seus desejos em relação à parentalidade, inclusive planejando a época da concepção e nascimento. Outras, no entanto, são surpreendidas pela notícia da vinda de um bebê. De fato, algumas vezes a gravidez pode ser o resultado de uma falha no método anticoncepcional escolhido. Contudo, alguns teóricos consideram que tais “surpresas” podem também significar a realização de um desejo inconsciente de ter filhos.
Diferentes transformações caracterizam cada um dos três trimestres de gestação. No primeiro, entre a 1ª e a 12ª semana, ocorrem alguns sintomas que são comuns a muitas mulheres, tais como: sonolência, cansaço e náuseas. Algumas futuras mamães relatam um aumento em sua “sensibilidade”, uma vez que se percebem mais chorosas e emotivas, de maneira geral. Em relação a isso, é interessante destacar que alguns homens também sentem sintomas semelhantes àqueles experimentados pelas mulheres. Tais sintomas poderiam ser compreendidos à luz das profundas transformações psicológicas que ambos experimentam nesse período. É bastante comum que surjam questionamentos acerca do processo de tornar-se mãe/pai e fantasias em relação à transformação do papel de filha/filho. Nesse sentido, é esperado o surgimento de sentimentos ambivalentes em relação aos desejos maternos e paternos - tanto para aqueles que programaram como para os que não programaram a gestação - e às responsabilidades inerentes ao papel social correspondente.
Ainda em relação aos aspectos psicológicos, é interessante destacar que as representações sobre o bebê começam a ser construídas no primeiro trimestre: trata-se do “bebê imaginário”, um bebê sonhado por seus pais e que, gradativamente, dará lugar a um bebê real. Tal idealização é importante e esperada durante a gestação, pois ajuda na construção da parentalidade e na conscientização das responsabilidades e papéis socialmente atribuídos aos pais.
No segundo trimestre, compreendido entre a 13ª e a 24ª semana, alguns eventos contribuem para que o bebê “real” ocupe um espaço maior que aquele do bebê imaginado pelos pais: surgem os primeiros movimentos fetais e, entre outras coisas, os batimentos cardíacos podem ser ouvidos ao se colocar o ouvido na barriga da mãe. É como se tais eventos reafirmassem aos pais a existência do bebê! Com isso, torna-se possível conceber mais claramente um bebê separado do corpo materno - um indivíduo ativo e com grandes possibilidades de interação com o mundo.
Nos três últimos meses, entre a 25ª e a 38ª semana, intensificam-se as expectativas relativas ao momento do parto e sobre os cuidados com o filho. Além disso, no imaginário dos pais, as fantasias baseadas nos movimentos fetais associam-se a expectativas quanto ao temperamento. Porém, esses movimentos tendem a diminuir em decorrência da falta de espaço uterino.
O apoio do pai e de outras pessoas importantes para a gestante torna a experiência de gerar um bebê mais tranquila e prazerosa. Observa-se que a presença paterna durante o período pré-natal e ao longo do desenvolvimento do bebê vem crescendo e sendo cada vez mais estimulada. Sendo assim, pode-se dizer que a gestação tem importantes reflexos na vida social da família, colocando-a diante da necessidade de reelaborações e novos arranjos dos relacionamentos.
           
Referências:

Ferrari, A. ; Piccinini, C. A.; Lopes, R. C. S. (2007). O Bebê Imaginado na Gestação: Aspectos Teóricos e Empíricos. Psicologia em Estudo, 12 (2), 305-313. 

Krob, A. D.; Piccinini, C. A.; Silva, M. R. (2009). A transição para a paternidade: da gestação ao segundo mês de vida do bebê. Psicologia USP, 20 (2), 269-291.

Piccinini, C. A.; Gomes, A. G.; Nardi, T. C.; Lopes, R. C. S. (2008) . Gestação e a constituição da maternidade. Psicologia em Estudo Maringá, 13 (1), 63-72.

Shaffer, D. R. (2009). Psicologia do desenvolvimento: infância e adolescência. (Cancissu, C. R. P. Trad.) São Paulo: Cengage Learning (Obra original publicada em 2005).

Zimmermann, A.; Zimmermann, H.; Zimmermann, J.; Tatsch, F.; Santos, C. (2001). Gestação, Parto e Puerpério. In: Eizirick, C. L.; Kapczinski, F.; Bassols, A.M.S. (orgs.). O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica (pp.29-39). Porto Alegre: Artmed.

Supervisão: Profª Drª Daniela Delias de Sousa


sexta-feira, 29 de março de 2013

O psicólogo e a família que espera um bebê: uma entrevista com Lucas Neiva



Nesta entrevista, o Professor Lucas Neiva-Silva fala sobre a história que antecede a chegada do bebê, do ponto de vista da psicologia das relações familiares.

Lucas Neiva-Silva possui graduação em Psicologia Habilitação Bacharel pela Universidade de Brasília (UnB - 1999), graduação em Psicologia Habilitação Psicólogo pela Universidade de Brasília (UnB - 2000), mestrado em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS - 2003) e doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS - 2008) em convênio com Universidad Autónoma de Madrid (UAM), Espanha, onde se especializou em análise de dados quantitativa e bioestatística. Atualmente é professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). É pesquisador membro e consultor estatístico do Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua (CEP-RUA FURG e UFRGS) e pesquisador convidado do Centro de Estudos de Aids do Rio Grande do Sul (CEARGS). Foi membro do UNICEF Technical Support Group on Accelerating HIV Prevention Programming With and For Most-at-Risk Adolescents em 2006 (Ucrânia). Consultor Ad hoc CNPq, FAPERGS e Ministério da Saúde. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Desenvolvimento Humano em Situações Atípicas, atuando principalmente nos seguintes temas: crianças e adolescentes em situação de rua, uso de drogas e saúde mental, comportamentos sexuais de risco, HIV/AIDS, avaliação psicológica de grupos de risco e estratégias de intervenção em saúde. Prêmio de Melhor Tese de Doutorado Latino-americana em Psicologia, outorgado pela Interamerican Society of Psychology em 2009.


Por Mariana Guariento Machado, Fernanda Carmine Baum, 
Denise Silveira da Rosa, Cláudia Andréia Pereira Peixoto e Vivian Halfen Porto

Supervisão: Profª Drª Daniela Delias de Sousa

A pré-história de um bebê

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Por Mariana Guariento Machado, Fernanda Carmine Baum, 
Denise Silveira da Rosa, Cláudia Andréia Pereira Peixoto e Vivian Halfen Porto


Por que eu nasci? De onde eu vim, mamãe? Por que tenho esse nome? Como era a minha vida na sua barriga? E antes disso? Você me planejou? E o meu pai, o que achava de tudo isso? A minha história não começou quando nasci, mas nos sonhos dos meus pais...
Não raras vezes, diz-se de um bebê que ele é a extensão de seus pais, seja o filho biológico ou adotado, uma vez que perpetua o sobrenome e as histórias de sua família. Quantas vezes ouvimos as expressões “Filho de peixe, peixinho é” ou “Tal pai, tal filho”? Porém, o nascimento de um filho pode representar tanto o desejo de continuidade como de ruptura de expectativas e padrões familiares. Seja como for, é plausível pensar que a história de uma criança não começa exatamente no momento da concepção ou do parto, mas, antes disso, nas expectativas, realizações e, até mesmo, frustrações de sua família de origem. A essa história que começa muitas vezes na infância dos pais, em suas brincadeiras, experiências com os próprios pais e reflexões sobre os papéis de pai e mãe, chamamos de “pré-história de um bebê”.
Antes mesmo de ser concebido, o bebê “imaginário” é rodeado de expectativas. Será que vai nascer saudável? É menino ou menina? Qual profissão, religião, time ou modo de vida ele vai seguir? As primeiras identificações e referências surgem na interação com os pais ou cuidadores, que naturalmente projetam em seus pequenos desejos relacionados ao que consideram saudável e adequado a uma criança. Porém, é preciso que, ao longo do desenvolvimento, se preserve um espaço para que o bebê se constitua como um indivíduo capaz de desejar coisas e sentir realização em suas próprias vivências.
O desejo de ter um filho é vivido de forma muito singular por cada pessoa ou casal. É importante considerar que o contexto social e cultural em que se está inserido também influencia fortemente as representações dos futuros pais sobre maternidade e paternidade. Em relação a isso, podemos nos perguntar: será que há um momento certo para se ter um filho? É possível que esse momento seja ideal para os pais? Alguns casais consideram importante postergar a parentalidade até que se tenha conseguido estabilidade profissional e financeira. Outros, no entanto, entendem a construção da família como algo estruturante em si, que inclusive dará forças para novas conquistas e reconhecimento social. Há também situações em que a chegada do bebê não foi planejada, constituindo-se uma “surpresa”. De qualquer forma, com ou sem planejamento, a presença do bebê coloca as novas famílias diante de importantes necessidades de adaptação e costuma representar uma importante mudança para as mais diferentes configurações: famílias nucleares, casais hetero ou homoafetivos, famílias monoparentais, entre outras. 

Referência:

EIZIRIK, Cláudio Laks; KAPCZINSKI, Flávio; BASSOLS, Ana Margareth Siqueira (Orgs.). O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2001.

Supervisão: Profª Drª Daniela Delias de Sousa